Uma avalanche de lama devastadora na fronteira entre o Nepal e o Tibete já deixou mais de 300 mortos e cerca de 1.500 pessoas desaparecidas, segundo balanço divulgado por autoridades na manhã desta quinta-feira, 27. Um vídeo gravado por um funcionário de uma usina hidrelétrica em Mailung, um dos lugares afetados, registrou o exato momento em que a lama atingiu a região.
A gravação de Vivek Shrestha, que já ultrapassa 36,6 milhões de visualizações nas redes sociais, mostra o desespero dos trabalhadores. No início do vídeo, o funcionário filma tranquilamente a inundação se aproximando, mas logo precisa escalar uma montanha para escapar da força da água.
“Hoje houve uma enchente em Mailung, em Rasuwa, e estou em estado grave. Fui resgatado de helicóptero”, relatou ele em suas redes sociais.
Depois de fugir da avalanche, Shreshta gravou outros dois vídeos. No segundo, esperando o socorro, ele filmou a força da água que descia o rio. No terceiro, quando a avalanche já havia passado, ele e os colegas aparecem sentados à beira do rio cheio de lama à espera de resgate.
Destruição e buscas
Equipes de resgate buscam nesta quinta-feira cerca de 1.500 pessoas desaparecidas, a maioria delas turistas, após a onda que desceu com força avassaladora pelos vales e montanhas, destruindo aldeias inteiras e ceifando pelo menos 335 vidas.
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Como a região é popular destino de trekking e famosa pelas rotas de peregrinação hindu, quase 600 estrangeiros estão entre as 826 pessoas desaparecidas no Nepal — entre eles, 177 indianos, 63 americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. A mídia estatal chinesa informou que pelo menos 558 pessoas sumiram no lado tibetano da fronteira; desse total, pelo menos 260 eram cidadãos estrangeiros.
A área afetada fica na Cordilheira do Himalaia, uma região de fronteira com forte apelo turístico e religioso, sendo rota de peregrinação hindu para o Kailash Mansarovar. Apesar de não ser densamente povoada, a região é um ponto estratégico que abriga diversas usinas hidrelétricas e um importante posto fronteiriço que conecta o Nepal à China (via Tibete).
O que causou a tragédia?
Relatos iniciais de autoridades nepalesas sugeriam que um terremoto poderia ter causado o colapso da parte inferior de uma geleira, que despencou sobre o rio Lhende Khola, que atravessa tanto o Nepal quanto o Tibete. Em seguida, teriam vindo as enchentes relâmpago nos vales abaixo.
No entanto, o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês) afirmou posteriormente que o evento relatado como um terremoto de magnitude 4,4 foi, na verdade, o tremor gerado pelo colapso da geleira e pelo fluxo de detritos. “Não houve terremoto”, afirmou o órgão.
Um estudo inicial de imagens de satélite da empresa Planet Labs indicou que um deslizamento de gelo e rocha provocou a inundação no rio Lhende, a cerca de 20 km da passagem Rasuwagadhi na fronteira China, segundo a autoridade nacional de gestão de desastres do Nepal.
A região do Himalaia, que abrange o Nepal e vários países vizinhos, é particularmente vulnerável a chuvas fortes, inundações e deslizamentos de terra, pois está aquecendo mais rapidamente do que o restante do mundo devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana. Pesquisas indicam que eventos climáticos extremos, como ondas de calor e tempestades intensas, bem como o derretimento de geleiras, têm se tornado mais frequentes na região.
Cientistas em Katmandu constataram, no início deste ano, que as geleiras em toda a região do Himalaia Hindu Kush estão derretendo em ritmo acelerado; as taxas de perda de gelo dobraram desde o ano 2000, principalmente devido ao aumento das temperaturas globais e às mudanças climáticas.


