
Em novembro de 2023, o então CEO dos estúdios Warner Bros. Pictures, David Zaslav, decidiu jogar fora o trabalho de centenas de pessoas que haviam se empenhado nas filmagens de Coyote vs. Acme, ocorridas cerca de um ano antes. Já finalizado, o projeto jamais veria a luz do dia e seria transformado em uma mera dedução de impostos para o magnata, que buscava reparar o dano causado pela pandemia de Covid-19 e por sucessivos fracassos de bilheteria. Felizmente — e graças à intensa comoção dos fãs — não foi bem assim. Nesta quinta-feira, 27, a comédia enfim chega aos cinemas brasileiros, por cortesia da distribuidora Ketchup Entertainment, que adquiriu os direitos em 2025 por 50 milhões de dólares.
Todo o calvário, porém, apenas realça a mensagem central do filme. Nele, o famoso Coiote se cansa de perseguir o Papa-Léguas sem sucesso, sempre sabotado por produtos defeituosos da marca Acme — detonadores que explodem, patins que andam para trás, e toda espécie de mecanismos que sempre o atiram de cima de um penhasco. Certo dia, um anúncio televisivo chama sua atenção: o advogado Kevin Avery (Will Forte) promete garantir indenização para personagens de desenho animado que tenham sido feridos por invenções da marca.
Assim começa o drama de tribunal satírico, que leva o pleito de seus protagonistas até o Supremo americano. No caminho, Coiote e Kevin ainda desvendam um mistério de longa data e descobrem que a Acme vêm ferindo cartuns de formas nebulosas e nefastas. A premissa é prato cheio para alfinetadas à Warner e, surpreendentemente, finca os pés no chão ao retratar os entraves do poder judiciário e o alcance das grandes corporações, que muitas vezes se sobrepõem ao Estado e ditam as regras do mundo ocidental. Acostumado a lutar batalhas invencíveis, Coiote é um perfeito Davi contra Golias, determinado a quebrar a cara quanto o necessário.
O roteiro sagaz tem como base um artigo homônimo publicado em 1990 na revista New Yorker, referência máxima no jornalismo literário. Escrito pelo humorista Ian Frazier, o texto se tornou espécie de clássico cult e negou a efemeridade do periódico. Foi publicado novamente em uma coletânea de 1996 e tem arrancado gargalhadas de leitores desde então. Hoje, Coiote não é mais sinônimo de frustração, mas perseverança.
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