Michelle Bolsonaro transformou-se de uma primeira-dama discreta para uma figura central no cenário político brasileiro, em sua primeira disputa eleitoral pelo Senado aos 44 anos. Essa ascensão é em parte atribuída a sua rede de alianças com líderes evangélicos, que defendem a participação cristã ativa em todos os aspectos da vida, incluindo o governo, em uma abordagem conhecida como teologia do domínio.
Segundo especialistas e pastores, os grupos evangélicos acreditam que é dever do cristão ocupar cargos de poder para “libertar” a esfera pública da influência que consideram negativa. Essa perspectiva abrange diversos setores, como política e mídia, e tem sido claramente adotada por várias das lideranças evangélicas que cercam Michelle, moldando sua visão de mundo e sua atuação política.
A trajetória de Michelle foi marcada por frequente contato com figuras proeminentes da teologia do domínio, especialmente durante os períodos eleitorais. Três momentos entre 2018 e 2026 destacam como ela conseguiu se posicionar entre a religião e a política, fortalecendo seu apoio entre os adeptos desse movimento. Durante a campanha de 2018, o pastor José Wellington Bezerra, uma liderança respeitada da Assembleia de Deus, elogiou Bolsonaro, destacando-o como o único candidato que falava a linguagem evangélica, ajudando a consolidar o apoio do público cristão.
Na campanha de 2022, Michelle Bolsonaro foi identificada como uma peça chave para conectar-se com eleitoras evangélicas, inicialmente reticentes. Sua presença em eventos aumentou significativamente, onde ela afirmou que seu marido, Jair Bolsonaro, era um “escolhido de Deus”. Esse papel culminou na criação do PL Mulher, uma ala do partido que promove propostas políticas associadas a valores conservadores, atraindo mulheres que compartilham ideais semelhantes.
Após o primeiro turno das eleições de 2022, numa ocasião em que Lula já demonstrava vantagem, Michelle discursou em um culto, comparando a disputa a uma batalha espiritual e convocando a igreja a tomar uma posição clara. Esse papel dela como porta-voz dos interesses conservadores só se intensificou em 2026, quando seu filho, Flávio Bolsonaro, foi escolhido para disputar a presidência.
Preocupado em replicar o apoio ao patriarca, Flávio decidiu visitar várias denominações evangélicas, retomando o contato com José Wellington, que pediu votos em seu nome. Contudo, a dinâmica familiar foi tumultuada por um desentendimento entre Flávio e Priscila Costa, uma aliada de Michelle, que culminou em críticas públicas de Michelle a Flávio em um vídeo. Esse episódio impactou negativamente a imagem do candidato, resultando em uma queda significativa nas intenções de votos entre o eleitorado evangélico, especialmente entre as mulheres.
A proximidade de Michelle com líderes radicais da teologia do domínio também merece atenção. Ao longo dos anos, Michelle caiu nas graças de pastores influentes, como Silas Malafaia e Renê Terra Nova, que a apoiaram publicamente. No entanto, sua relação com esses líderes está em constante evolução, uma vez que a figura de Malafaia, por exemplo, já não tem a mesma influência junto à família Bolsonaro.
A teologia do domínio, conforme explicou um pesquisador da área, serve como uma estratégia para a ocupação e controle de espaços públicos, não sendo a única motivação para a participação evangélica na política. Michelle, constituindo-se como uma portadora de uma mensagem que combina elementos religiosos com uma estratégia política bem definida, usa essa articulada narrativa para reforçar seu papel e seu espaço.
Pesquisadores acreditam que Michelle conquistou um lugar significativo na política conservadora brasileira, especialmente entre as mulheres. Embora a assistente de um discurso político possa ter suas raízes em situações de crise, sua habilidade em navegar esses espaços a coloca como uma figura proeminente ao lado de seu marido, continuando a narrativa do bolsonarismo.
Michelle, portanto, não é apenas uma figura secundária, mas uma “leoa de direita”, que exerce uma influência crescente, aproveitando-se da base conservadora e religiosa do Brasil. Suas ações e discursos, que ecoam a teologia do domínio, desempenham um papel crítico em moldar o futuro político, refletindo não apenas suas crenças pessoais, mas também um compromisso forte e claro com a ideologia conservadora que a cercou e que a continua a promover no cenário nacional.


