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Mais de 100 das quase 1.500 pessoas desaparecidas após inundações devastadoras na fronteira entre o Nepal e o Tibete estavam em peregrinação ao Monte Kailash, um local sagrado no Himalaia que, embora conhecido como “montanha proibida”, atrai seguidores do budismo e hinduísmo. O desastre deixou pelo menos 365 mortos, centenas de feridos e transformou a região em um lamaçal.
Quase 600 estrangeiros estão entre as 826 pessoas desaparecidas no Nepal — entre eles, 177 indianos, 90 americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 25 canadenses. A mídia estatal chinesa informou que pelo menos 558 pessoas sumiram no lado tibetano da fronteira; desse total, pelo menos 260 eram cidadãos estrangeiros.
Montanha proibida
O Monte Kailash é um pico no sudoeste do Tibete, próximo às fronteiras da China com o Nepal e a Índia. Ele se eleva a mais de 6.400 metros acima do nível do mar e fica perto do Lago Manasarovar.
Apesar de ter havido tentativas de escalada nas décadas de 1920 e 1930, não há nenhum registro de chegada ao topo da montanha na história. A China proíbe qualquer tentativa de escalada, em respeito ao significado religioso do local.
Uma das rotas de peregrinação inclui a passagem pelo Nepal, em áreas afetadas pela avalanche. Os viajantes seguem até Rasuwa, uma das cidades mais afetadas, e cruzam a fronteira entre Nepal e China pelo posto de Rasuwagadhi, que foi arrasado pela avalanche de lama. Do outro lado da fronteira fica a região de Gyirong , de onde a viagem continua em direção ao Monte Kailash.

Mitologia
O local tem um significado sagrado para o hinduísmo, o budismo, o jainismo e a tradição tibetana Bon. Cada uma dessas designações associa a montanha a crenças e histórias espirituais distintas.
Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD), sediado na cidade nepalesa de Lalitpur, o pico é considerado a morada de Shiva, o deus hindu da destruição, e de Parvati, uma deusa hindu associada ao casamento, à fertilidade e à maternidade.
Já os seguidores da tradição tibetana Bon consideram o local uma sede de poder espiritual e associam a região a Tonpa Shenrab, o fundador da tradição.
A geógrafa Emily Yeh, professora da Universidade do Colorado em Boulder e pesquisadora com trabalhos realizados no Tibete, escreveu em 2017 que o Kailash está associado ao mítico Monte Meru, considerado o centro do mundo na cosmologia hindu e budista.
A paisagem ao redor também figura em lendas locais e tradições do Himalaia. O livro Shared Sacred Landscapes (“Paisagens Sagradas Compartilhadas”, em tradução livre), publicado pelo ICIMOD em 2017, reúne algumas dessas histórias.
Uma delas conta a história de Guru Nanak, o fundador do sikhismo, que visita moradores de uma aldeia que desejam fazer a peregrinação ao Monte Kailash. Nanak lhes ensina que a verdadeira peregrinação é uma jornada espiritual interior.

Peregrinação
O governo indiano organiza uma peregrinação oficial a Kailash e ao Lago Manasarovar entre junho e setembro de cada ano. Operadoras privadas também organizam peregrinações passando pelo Nepal. Tradicionalmente, os peregrinos contornam o Monte Kailash em vez de escalá-lo, completando um circuito de cerca de 53 quilômetros ao redor da montanha.
Acredita-se que a jornada ao redor do pico purifique os viajantes de seus pecados, e o percurso pode levar cerca de três dias para ser concluído. Hindus e budistas tradicionalmente circundam a montanha no sentido horário, enquanto seguidores da religião Bon fazem o trajeto no sentido anti-horário.
No vizinho Lago Manasarovar, alguns peregrinos hindus banham-se em suas águas como um ritual de purificação espiritual.
A especialista Emily Yeh relatou que os tibetanos costumam fazer paradas em mosteiros e outros locais sagrados ao longo da rota, tocando com seus rosários de oração ou com a testa pontos que, acredita-se, possuem marcas sagradas. Outros rituais servem para testar o mérito, o pecado ou a sorte do peregrino.
Desastre
O guru espiritual indiano Jaggi Vasudev, também conhecido como Sadhguru, afirmou em uma publicação no X (ex-Twitter) que 77 pessoas que retornavam da montanha em grupos organizados por sua Fundação Isha estavam em um centro de imigração em Gyirong, no Tibete, quando as inundações repentinas ocorreram.
O gatilho da catástrofe foi o colapso de uma geleira, que fez com que detritos descessem rapidamente o rio Lhende Khola, atingindo comunidades em ambos os lados da fronteira. Enchentes repentinas semelhantes têm atingido a região à medida que o aumento das temperaturas desestabiliza cada vez mais o gelo do Himalaia. A região é particularmente vulnerável a chuvas fortes, inundações e deslizamentos de terra, pois está aquecendo mais rapidamente do que o restante do mundo devido às mudanças climáticas causadas pela ação humana: as taxas de perda de gelo dobraram desde o ano 2000.

Vídeos do desastre de quarta-feira 26 mostram uma enorme parede de água avançando sobre a região enquanto pessoas tentavam fugir. A força, o volume e a velocidade da enchente deixaram pouco tempo para que as pessoas pudessem escapar. A onda arrastou caminhões e engoliu casas, estradas e usinas de energia no Nepal; já no Tibete, autoridades falaram em um “grande número de vítimas” após um deslizamento de lama atingir uma passagem de fronteira.
Equipes de resgate encontraram corpos a centenas de quilômetros rio abaixo da área do desastre, no distrito de Chitwan, no Nepal, próximo à fronteira com o Tibete. Dezenas de feridos foram levados para a capital nepalesa, Katmandu, para receber atendimento médico especializado. Até a manhã desta quinta, o exército nepalês havia resgatado mais de 100 pessoas de áreas afetadas pelas inundações utilizando helicópteros.
Sobreviventes compartilharam relatos angustiantes sobre como conseguiram sobreviver. “Comecei a correr. Então, uma parede de água desabou com um estrondo, como se fosse um terremoto”, disse Bibek Kumal, do distrito de Rasuwa — o mais atingido —, perto da fronteira do Nepal com o Tibete. Do leito do hospital, ele contou que a enxurrada o arrastou rio abaixo em meio à lama e aos escombros, mas ele sobreviveu ao se agarrar a uma mangueira.
Keshav Prasad Baral, um sobrevivente de 68 anos que recebia atendimento em no hospital, contou ter perdido a mulher. “Era uma enorme onda de lama vindo direto em nossa direção. Tentei segurar a mão da minha esposa e levá-la para o terraço. Mas ela foi arrastada pela lama. Quatro ou cinco horas depois, um helicóptero veio me resgatar. Minha esposa ainda está em algum lugar sob a lama. Ela se foi”, disse ele.


