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Reitor da USP vê influência política na greve dos alunos – 02/06/2026 – Educação

O reitor da USP, Aluísio Segurado, afirma que ceder às demandas estudantis dificilmente teria encerrado a greve em vigor na universidade desde abril. Para ele, a mobilização está ligada a interesses eleitorais no estado, não apenas à insatisfação dos discentes.

Segundo o professor, em seu primeiro semestre como mandatário, essa percepção surgiu ainda nas primeiras rodadas de negociação, quando já havia sido anunciada uma manifestação até o Palácio dos Bandeirantes. O ato foi organizado por entidades estudantis para pressionar o governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) por mais investimentos no ensino superior público de São Paulo.

“No dia 19 de abril, quando as demandas estudantis estão sendo trazidas, já me dizem que o movimento tem que estar mobilizado para, no dia 20 de maio, marchar até o Palácio dos Bandeirantes“, afirmou à Folha. “Fiquei com a sensação de que quaisquer coisas tratadas ao longo dessas conversas dificilmente levariam a uma interrupção [da greve].”

Nesse contexto político, avalia Segurado, o movimento extrapolou pautas ligadas à vida universitária e passou a incorporar reivindicações alheias à administração da USP, como o fim da escala de trabalho 6×1 e manifestações relacionadas ao conflito entre Israel e Palestina.

A greve na USP começou quando o senhor tinha menos de três meses de reitoria. Como avalia a condução das negociações?

Nós tivemos três reuniões muito longas de negociação, das quais participaram desde a primeira o reitor e a vice-reitora, todos os pró-reitores e outros membros do staff. Somadas, demandaram 20 horas de reunião. Inclusive, ouvi dos estudantes que era inusitado um reitor comparecer a uma mesa de estudantes no primeiro dia, quando ainda nem era greve.

Por que a reitoria não aumentou o valor do auxílio e encerrou a greve de uma vez?

O orçamento para esses auxílios havia sido aprovado pelo Conselho Universitário em dezembro do ano passado. A proposta era passar de R$ 850 para R$ 885, já bastante superior à inflação. Mas, numa das reuniões, um dos estudantes, aluno da própria Faculdade de Economia e Administração, nos mostrou que, se voltássemos ao ano em que o programa foi criado, houve perda do poder de compra. Nós saímos, avaliamos com a equipe financeira e voltamos com uma contraproposta imediata: aplicar integralmente o IPC-FIP desde 2022, o que levaria o auxílio para R$ 912. Mal poderia imaginar que, imediatamente após a concessão, o pedido se modificaria. Na sequência, me disseram que isso já não bastaria mais e que a reivindicação passava a ser um salário mínimo paulista, mais de R$ 1.800.

E por que não ir além dos R$ 912?

Porque esta é uma política permanente. Diferentemente de uma reforma de praça, em que se faz o investimento e acabou, esse é um programa sustentado pelo tempo máximo de graduação do aluno. Ele tem que sair do orçamento aprovado pelo Conselho Universitário. Para ir além dos R$ 912, seria preciso dizer de onde esse recurso viria, o que a reitoria não pode decidir sozinha. Só o Conselho Universitário pode fazer isso ao final deste ano.

Os estudantes dizem que não houve diálogo. O senhor discorda?

Quem diz isso não são os 90.000 estudantes da USP. Quem diz isso é um grupo que tomou para si uma apropriação da pauta estudantil, talvez até intencionalmente impossível de ser atendida. Na primeira reunião, nós chamamos os representantes dissidentes eleitos para o Conselho Universitário, para o Conselho de Graduação, para o Conselho de Inclusão e Pertencimento. Além disso, pedi a todos os diretores de unidades que consultassem seus centros acadêmicos e nos indicassem mais dois representantes por unidade. A partir da segunda reunião, o chamado comando de greve passou a dizer que só seriam válidas as conversas realizadas com aquele grupo.

Em determinado momento, a reitoria resolveu encerrar as negociações unilateralmente. Não foi um erro?

Entendo a palavra negociação como uma busca de consensos entre partes com ideias divergentes. O que nós ouvimos na terceira reunião é que as negociações só poderiam ser encerradas quando todas as reivindicações fossem atendidas integralmente. Isso está gravado no Instagram dos estudantes. Para mim, o próprio sentido de negociação havia sido rompido. O que estava sendo chamado de negociação era, na verdade, uma imposição de pauta. Eu disse: se a negociação só pode se encerrar quando tudo for atendido, então elas já estão encerradas, porque não é possível atender a todas elas.

A pauta dos grevistas era exclusivamente estudantil?

Não. A pauta que nós recebemos incluía desde a libertação da Palestina até o fim da jornada 6 por 1 de trabalhadores terceirizados. Questões totalmente alheias às próprias competências de qualquer gestor universitário. O fim da jornada 6 por 1 pode ser algo defensável; a Câmara dos Deputados já aprovou, inclusive, essa extinção. Mas não é uma política que pode ser resolvida no âmbito da universidade.

O governador disse publicamente que as reivindicações dos estudantes são justas. O senhor interpreta isso como um recado para a reitoria?

É preciso colocar isso dentro do contexto correto. O que ouvi do governador foi: a reivindicação dos estudantes por uma moradia digna é justa? Sim. Por uma alimentação de qualidade? Sim. Mas não o ouvi dizer que a reivindicação por um salário mínimo paulista era justa. O que ele quis dizer, e disse com correção, é que só à USP cabe decidir onde ela vai investir seus recursos.

Acredita que a greve teve motivação eleitoral?

Na primeira reunião que fiz com os estudantes, antes da paralisação começar, já me falaram que havia uma manifestação, uma marcha ao Palácio dos Bandeirantes, agendada para 20 de maio. Se no dia 19 de abril, quando pela primeira vez as demandas estavam sendo trazidas, já me dizem que o movimento tem que estar mobilizado para marchar ao Palácio, fiquei com a sensação de que quaisquer coisas que fossem tratadas ao longo de todas essas conversas dificilmente levariam à interrupção de um movimento que tinha uma data marcada, com um compromisso que não foi estabelecido aqui. [Motivações] eleitorais, sem dúvida.

Chegou a notar algo que reforçasse essa impressão nas reuniões?

Me causou estranheza jamais ter visto uma dessas lideranças do chamado comando de greve portando uma camiseta da USP ou da sua faculdade. Eles sempre portavam camisetas de movimentos apoiados em partidos extremistas, a grande maioria dos quais sequer tem assentos no parlamento. E, nas conversas, por diversas vezes, o estudante não se apresentava como ‘fulano de tal, aluno do curso tal da faculdade tal’. Ele se apresentava como ‘fulano de tal, do movimento X ou do movimento Y’. Isso me faz pensar que a voz que ele externava ali era muito mais a voz do movimento do que a do estudante.

E a situação do CRUSP, das moradias estudantis, reconhece que há problemas sérios?

Nós temos diferentes situações. Alguns blocos foram totalmente reformados, estão em ótimas condições. Outros precisam de intervenção estrutural, e isso está na nossa pauta. O que foi desagradável foi ver a veiculação de um vídeo de um prédio que foi interditado pela própria reitoria, aguardando licitação para reforma estrutural, sendo filmado como se o estudante morasse ali. Certamente há necessidade de intervenções, e talvez este momento tenha nos mostrado que precisamos agilizar esse processo. Se quisermos um modo turbo, vamos precisar de um entendimento com os estudantes, inclusive para aceitar alternativas transitórias de moradia enquanto as obras acontecem.

Que lição o senhor tira dessa greve, a primeira grande crise da sua gestão?

Esteja preparado para os imprevistos, porque eles ocorrem. Tenha mecanismos de escuta e de negociação, mas entendendo que negociação não é ceder a imposições. E faça a comunidade universitária perceber com clareza que ela está inserida na sociedade e que também deve cumprir regramentos que regem a vida civilizada numa democracia. Eu vivi a universidade num momento em que não tínhamos sociedade democrática. Sei bem o que é o arbítrio, o que é a violência do Estado. Fui chamado a liderar a USP num Estado democrático de direito, em que os direitos fundamentais estão garantidos. Talvez esse seja o ensinamento.


RAIO-X -ALUÍSIO SEGURADO, 68

É médico infectologista, professor titular da Faculdade de Medicina da USP e reitor da Universidade de São Paulo no mandato de 2026 a 2030. Antes de assumir o cargo, foi pró-reitor de graduação da universidade.

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