InícioEducaçãoTela pesa, mas não define leitura de pré-adolescentes - 29/08/2026 - Educação

Tela pesa, mas não define leitura de pré-adolescentes – 29/08/2026 – Educação

Celulares, redes sociais e plataformas online de jogos tomam conta do universo dos jovens cada vez mais cedo. Em um país em que a maioria da população não lê, as telas parecem ser as grandes vilãs da dificuldade em criar hábitos de leitura de livros já no início da adolescência.

Apesar de disputar a atenção desse grupo com outros hábitos, o gosto pela leitura depende mais da influência familiar e do acesso a obras de interesse no caso de jovens entre 11 e 14 anos, dizem especialistas.

A faixa etária corresponde à maior parte dos leitores do país, de acordo com a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, e é vista como estratégica para a consolidação dos hábitos de leitura.

No estudo feito em 2024, 81% das pessoas com idade entre 11 e 13 anos foram consideradas leitoras. O percentual cai para 62% no segmento seguinte, que vai dos 14 aos 17.

“É claro que o uso do celular atrai muito a atenção deles, mas é um fenômeno muito parecido com a época da televisão. Quem não gostava de ler na época da TV é um perfil parecido com quem não gosta de ler agora”, afirma Juçara Teixeira, professora de língua portuguesa do 9º ano do Centro Pedagógico da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Para ela, a falta de envolvimento familiar tem mais peso. “Em geral, se a família não tem a prática de leitura, a cultura de comprar livros, de ler livros, isso interfere no hábito daquele estudante.”

Leitora assídua de romances infantojuvenis, Anna Carolina, 14, diz que se espelhou na irmã, de 25, ao criar gosto pela leitura. “Eu gosto de ler em casa, na escola, em todo lugar.”

Já Samuel Matheus, 13, diz que o interesse começou a aparecer mais tarde porque não recebeu o incentivo em casa. No último ano, ele foi atraído por histórias de sagas como “Harry Potter“, de J.K. Rowling, e “Assassin’s Creed”, de Anton Gill.

“São livros que têm magia, envolvimento com seres míticos e tal. Eu passei minha infância inteira assistindo a desenhos animados, então é algo que me chama atenção.”

Diferenças entre as preferências dos alunos e as leituras obrigatórias das escolas também são obstáculos no engajamento literário. “Os livros que a escola passa são histórias de antigamente, coisa nada a ver”, diz Pedro Ryan, 14. O estudante diz não se considerar um grande leitor, embora afirme gostar dos gibis da Turma da Mônica.

“Muitos gostam de ler, principalmente mangá, quadrinhos e romances infantojuvenis. A questão é que muitas vezes não gostam de ler o que a gente está propondo”, afirma Patrícia Cardoso, professora de português do CEU Emef Jaguaré, escola da zona norte de São Paulo.

Levantamento da Folha mostra que os livros “Diário de um Banana”, de Jeff Kinney, são recordistas em empréstimos feitos por adolescentes de 11 a 14 anos em bibliotecas e equipamentos públicos de São Paulo.

No ano passado, 16 obras da coleção estiveram entre as 20 mais demandadas da capital paulista, somando 3.745 empréstimos ao longo do ano. De 2022 a 2024, a série também dominou a preferência entre leitores dessa faixa etária. Entre as dez mais retiradas, a única fora da série é “Harry Potter e a Pedra Filosofal”.

Outros destaques foram “O Ladrão de Raios”, de Rick Riordan, “Diário de uma Garota Nada Popular”, de Rachel Renée Russell, “Heartstopper”, de Alice Oseman, e “O Homem-cão”, de Dav Pilkey.

A lista reflete as preferências de estudantes ouvidos pela reportagem. Fantasia, aventura e romances infantojuvenis foram os principais gêneros citados, junto aos quadrinhos e mangás.

Barbara, 13, diz que passou a gostar de ler quando descobriu livros da sua preferência, como os de terror. “Quando eu era menor, eu sempre tentava ler um livro e não conseguia acabar porque não me interessava.”

Duda Spier, 20, estudante de publicidade e propaganda, mantém nas redes o perfil literário @entremundosepáginas desde os 16. Para ela, um dos fatores que afastam a leitura dos adolescentes, parcela considerável dos seus seguidores, é não saber quais são as obras direcionadas a sua faixa etária.

Por isso, ela passou a publicar resenhas contendo uma classificação indicativa. “Não existe nenhum site oficial que defina a classificação. Eu sempre gosto de pesquisar, às vezes as editoras colocam, às vezes encontro na Amazon e faço umas pesquisas por fora também”, explica.

Outro ponto que chama a atenção é a preferência dos jovens pelo livro físico, embora sejam nativos digitais. “Acho que o [livro] digital é legal, mas não tem aquela mesma alegria de você pegar um livro físico, sentir a textura, o cheiro do livro”, afirma Maria Eduarda, 14, que gosta de sublinhar os trechos preferidos com um marca-textos.

A percepção é partilhada por Katy Michelle, 11, fã de mangás como os da série “Takagi – A Mestra das Pegadinhas”, de Soichiro Yamamoto. “O livro dá pra tocar, dá pra ver as páginas, dá pra analisar melhor. Já fico muito no telefone.”

Para a professora da Faculdade de Letras da UFMG Carla Coscarelli, essa escolha se deve tanto ao prazer tátil proporcionado pelo livro físico quanto à percepção dos jovens sobre a necessidade de limitar o uso de aparelhos eletrônicos.

“É muito positivo que os alunos tenham essa consciência de que o tempo de tela é legal no tempo dele, mas que tem outras atividades tão legais: jogar futebol, jogar vôlei, tocar um instrumento, fazer uma arte, ler um livro.”

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