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Luz, câmera… IA: como a tecnologia invadiu a TV e o cinema sem pedir licença

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Um escândalo se formou semanas antes do Oscar de 2025, quando veio a público que O Brutalista — até então favorito ao prêmio máximo — havia empregado uma ferramenta de inteligência artificial generativa para aperfeiçoar o sotaque húngaro do astro Adrien Brody. O golpe foi suficiente para impedir que o épico se tornasse o grande vencedor do prêmio — o ator, porém, foi perdoado, saindo com uma estatueta dourada. A parcimônia na punição era sintoma de uma indústria que, com bastante pudor, já abraçava ferramentas similares, sem de fato assumi-las. Um ano e meio depois, a Netflix descartou o conservadorismo quanto a isso, inaugurou o estúdio INKubator para animações de IA e revelou ter otimizado etapas da produção de cerca de 300 títulos neste ano, incluindo a minissérie nacional Brasil 70, na qual a ferramenta preencheu arquibancadas com torcedores desfocados — recurso que antes era feito com efeitos visuais, mas demandando maior dificuldade de produção e de valor.

GOL DIGITAL - Os bastidores da série: outros 300 títulos da Netflix foram otimizados pela tecnologia
GOL DIGITAL – Os bastidores da série: outros 300 títulos da Netflix foram otimizados pela tecnologia (Alexandre Schneider/Netflix)

O público parece não se importar. O drama histórico George Washington (Young Washington, 2026, Estados Unidos), que estreia nos cinemas brasileiros na quinta-feira 3, assumiu o uso de IA na produção de todos os seus efeitos especiais e, mesmo assim, chegou ao segundo lugar no ranking de filmes mais vistos entre os americanos no lançamento lá fora, no dia 4 de julho. As possibilidades de uso da tecnologia no cinema e na TV são inúmeras — e assustam a cadeia produtiva por trás das câmeras. Afinal, o medo que acompanha a IA é — e assim será por muito tempo — a tomada de empregos humanos. Outro pesadelo ronda o setor: a propagação da artificialidade na criação artística.

Paulo Barcellos, CEO da produtora O2 Filmes, que supervisionou a série Brasil 70, sugere que o discurso temerário não precisa ser tão apocalíptico. Ele conta que a empresa, uma das principais do ramo no país, se voltou à inteligência artificial em janeiro de 2024, quando foi formado um laboratório para o estudo de tecnologias desenvolvidas fora do Brasil. Desde então, o empresário diz que nenhum funcionário foi demitido e nenhuma contratação foi evitada pela IA, mas é fato que ela se espalha pelas mais diversas áreas para além dos efeitos visuais: decupagem de roteiros, organização de escalas mais eficientes e a rápida tradução de textos quando há interação com uma matriz estrangeira à la Netflix. “Antes, levávamos uma semana para reescrever as páginas em inglês, e muitos projetos não aconteciam por falta de tempo hábil”, conta Barcellos.

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HISTÓRIA RENOVADA - George Washington: ferramenta ampliou escala da trama
HISTÓRIA RENOVADA – George Washington: ferramenta ampliou escala da trama (MUBI/.)

Outra regalia permitida pela IA é a produção dos chamados storyboards — ilustrações que representam a composição visual de um filme —, outrora limitada por orçamentos escassos. A ideia entusiasma também o lendário Martin Scorsese, que em junho se tornou conselheiro da firma alemã Black Forest Labs a fim de colaborar com o desenvolvimento de programas com esse objetivo, os quais promete utilizar em sets futuros.

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Outros grandes nomes da indústria entraram no barco. O ator e produtor Andy Serkis vai dirigir o próximo derivado de O Senhor dos Anéis, previsto para 2027, e confessou que parte do elenco será rejuvenescido por IA. O aclamado Steven Soderbergh a utilizou para gerar imagens do documentário John Lennon: The Last Interview, que estreou no Festival de Cannes em maio. A família de Val Kilmer permitiu que o ator fosse “ressuscitado” pela ferramenta para estrelar o drama As Deep as the Grave — em um papel inédito, com atuação totalmente desenvolvida pela máquina. Existem ainda usos envolvendo o campo da maquiagem e caracterização de atores — e até mesmo retoques estéticos, uma evolução do bom e velho Photoshop. O programa Vanity AI mexeu na carinha de atores em mais de 27 obras hollywoodianas recentes, como Homem-Aranha: Sem Volta para Casa e a temporada final de Stranger Things.

REMIX - O plano de Musk: bilionário prometeu criar versão mais “fiel à história” de A Odisseia com o Grok
REMIX - O plano de Musk: bilionário prometeu criar versão mais “fiel à história” de A Odisseia com o Grok (Universal Pictures; Godofredo Vásquez/AP/Imageplus)
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Um benefício específico para o audiovisual brasileiro é a possibilidade de rivalizar com a máquina financeira de Hollywood. “Nunca tivemos um Game of Thrones nacional porque não há verba para isso”, afirma Barcellos. “Já nos próximos anos, nossas obras vão competir em pé de igualdade com o que é feito com centenas de milhões de dólares.” O entusiasmo se espalha também no avanço das ferramentas de dublagem por IA, capazes de adequar os lábios dos atores a qualquer língua e, assim, trazer mais espectadores para a produção nacional.

O PRECIOSO - Andy Serkis e Gollum: atores da saga serão rejuvenescidos
O PRECIOSO - Andy Serkis e Gollum: atores da saga serão rejuvenescidos (./Reprodução)
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Ao que tudo indica, os mercados emergentes serão os mais beneficiados. Neste ano, o badalado Festival de Cinema de Tribeca, em Nova York, aceitou na programação seu primeiro filme com imagens inteiramente geradas por inteligência artificial. Trata-se de Dreams of Violets, do multiartista britânico-iraniano Ash Koosha. O longa resume os últimos 47 anos da resistência civil do país persa e retrata paisagens e atores fake que câmeras não captariam sem pôr uma equipe em risco. O próximo passo do diretor, porém, será menos político: para contrariar a devoção de Christopher Nolan aos efeitos práticos e defender as possibilidades da IA, Koosha produziu sua própria adaptação de A Odisseia, prevista para os próximos meses.

ATORES FAKE - Dreams of Violets: IA driblou a censura iraniana
ATORES FAKE - Dreams of Violets: IA driblou a censura iraniana (Fountain 0 Studios/.)
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Exemplo emblemático contra a IA, a superprodução deu tanto o que falar que atiçou até o zilionário Elon Musk: ele também prometeu criar sua própria Odisseia com a ferramenta Grok Imagine, de modo a extinguir a diversidade racial e de gênero que marcou o longa que segue em cartaz nos cinemas. Difícil, porém, que qualquer uma das investidas chegue perto do êxito bilionário de Nolan, filmado ao longo de três meses exaustivos em locações estonteantes da Europa, com acesso ao elenco mais estrelado possível e o uso de enormes câmeras de Imax que a IA (ainda) não consegue replicar. Para os mais otimistas, o dilema de usar ou não a tecnologia não fará mais sentido. Em vez de um robô cruel e rebelde, como o HAL de 2001: Uma Odisseia no Espaço, as máquinas serão uma ferramenta cada vez mais preciosa nas mãos dos cineastas.

Publicado em VEJA de 28 de agosto de 2026, edição nº 3010

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